Curadoria de votações

Como selecionamos, classificamos e validamos as votações legislativas que alimentam as coordenadas políticas dos parlamentares.

A — O problema

1. Por que nem toda votação serve

Assembleias legislativas e a Câmara dos Deputados produzem centenas de votações nominais por legislatura. A grande maioria é unânime ou quase unânime — homenagens, denominação de logradouros, matérias consensuais — ou procedimental — regime de urgência, questão de ordem, aprovação de ata.

Usar todas indistintamente para estimar coordenadas produziria resultados distorcidos: a massa de votações consensuais empurraria todos os parlamentares para um centro artificial, diluindo os sinais ideológicos reais. O desafio é selecionar um subconjunto que maximize o poder discriminante — onde os parlamentares de fato divergem.

2. Visão geral do pipeline

A curadoria opera em cinco etapas sequenciais, com validação cruzada entre etapas.

1

Filtragem

Índice de divisão ≥ 13%Descartar votações unânimes e procedimentais

2

Classificação

4 eixos temáticos com pesosAtribuir pesos contínuos de -1.5 a +1.5

3

Auditoria

Revisão adversarialVerificar eixo, direção e coerência

4

Seleção

~15 PLs balanceados por eixoMínimo 2 por eixo, prioridade por divisão

5

Validação

Sanidade e coerênciaCoordenadas individuais, variância intra-partido

Saída final: 4 valores por parlamentar (x, y, z, w) representando Economia, Direitos, Meio Ambiente e Segurança, em escala contínua de -1 a +1.

B — As cinco etapas em detalhe

3. Etapa 1 — Filtragem por índice de divisão

Definição

O índice de divisão de uma votação é a proporção do lado minoritário em relação ao total de votos nominais:

índice_divisão = min(Sim, Não) / (Sim + Não)

Votação unânime = 0. Votação perfeitamente dividida = 0.5.

Threshold padrão: 13%

Pelo menos ~1 em 8 parlamentares deve ter votado contra a maioria. Votações abaixo desse limiar são descartadas.

Votações com baixa divisão carregam pouca informação sobre posicionamento individual. Se 95% votaram Sim, o voto “Sim” não distingue ninguém. O threshold de 13% é consistente com práticas da literatura de estimação espacial (Poole & Rosenthal, 1997), onde votações lopsided são tipicamente excluídas.

Threshold adaptativo:quando o número de votações divididas é inferior a 8, o threshold é reduzido para 10%. Se ainda assim houver menos de 5, o estado é classificado como “sem dados suficientes” e recebe coordenadas por centróide partidário.

Filtros adicionais

  • Mínimo de 5 votos nominais por votação (quórum mínimo de confiabilidade)
  • Prioridade para votos recentes (2023+), com fallback para todo o histórico quando o volume recente é insuficiente (< 100 votos ou < 20 votações distintas)

Esta abordagem é análoga ao que o DW-NOMINATE e o Voteview fazem com o Congresso americano: excluir votações unânimes e quase-unânimes para focar nas que revelam clivagens reais.

4. Etapa 2 — Classificação temática

Cada votação dividida é classificada nos quatro eixos temáticos, com pesos contínuos de -1.5 a +1.5:

Economia

- Estado / intervenção|+ Mercado / liberalização

Palavras-chave: Impostos, cargos, salários, privatização, fundos, orçamento

Direitos e valores sociais

- Tradição / conservadorismo|+ Emancipação / ampliação de direitos

Palavras-chave: Direitos, gênero, família, religião, linguagem, igualdade

Meio ambiente

- Produtivismo / flexibilização|+ Proteção / sustentabilidade

Palavras-chave: Meio ambiente, pesca, mineração, desmatamento, zoneamento

Segurança e justiça

- Punitivismo / endurecimento|+ Garantismo / direitos processuais

Palavras-chave: Polícia, armas, prisão, violência, drogas, pena

Regras de classificação

  • O eixo primário deve ter peso ≥ 0.5 em valor absoluto
  • Eixos não relacionados à matéria recebem peso 0
  • A direção do peso segue a posição “a favor” do PL original (não do veto)

Saída por votação

Cada classificação produz: título simplificado, fato descritivo, argumento pró, argumento contra, pesos nos 4 eixos, eixo primário e justificativa.

{ titulo: "Privatização de estatal",
economia: 1.2, costumes: 0, meio_amb: 0, seguranca: 0,
eixo_primario: "economia" }

5. Etapa 3 — Auditoria adversarial

A auditoria funciona como uma revisão por pares adversarial: um processo independente tenta destruir a classificação original, buscando erros sistemáticos.

Critérios de verificação

  • Eixo primário correto? A clivagem real da matéria é a que foi atribuída?
  • Pesos coerentes? Ex: PL sobre pesca não deveria ter peso em costumes
  • Direção correta? O voto “a favor” puxa na direção certa?
  • Argumentos equilibrados? Pró e contra são fiéis à realidade?

Regras de correção

  • Apenas erros claros justificam correção: eixo primário errado, direção invertida, peso absurdo
  • Ajustes finos não são corrigidos — diferenças menores que 0.3 são mantidas

O modelo adversarial reduz viés sistemático. Se o classificador tende a sobre-representar economia, o auditor corrige. Se a direção está invertida (comum em PLs com redação ambígua), o auditor captura. A taxa típica de correção fica entre 10% e 25% das classificações.

6. Etapa 4 — Seleção balanceada

Selecionar ~15 votações por estado que maximizem a representatividade temática e o poder discriminante.

Algoritmo de seleção

  1. Agrupar PLs auditados por eixo primário
  2. Ordenar cada grupo por índice de divisão (mais divididas primeiro)
  3. Selecionar top N/4 de cada eixo (mínimo 2 por eixo)
  4. Preencher vagas restantes com os PLs mais divididos, independente do eixo

Eixo sem cobertura: quando um eixo tem menos de 2 PLs selecionados, as coordenadas nesse eixo são zeradas para todos os parlamentaresdo estado. Sem dados = sem opinião. Preferimos dizer “não sabemos” do que usar proxies.

Consequência: um eleitor que se importa muito com meio ambiente não terá diferenciação nesse eixo em estados sem votações ambientais divididas. Isso é mais honesto do que assumir que deputados estaduais seguem o padrão federal do partido.

7. Etapa 5 — Validação de sanidade

Cálculo de coordenadas

Para cada parlamentar P:
Votou SIM → somar pesos do PL como estão
Votou NÃO → somar pesos invertidos (× -1)
Ausente/abstenção → ignorar

Coordenada = média ponderada, normalizada para [-1, +1]

Mínimo de 3 PLs votados por parlamentar para gerar coordenadas individuais. Abaixo disso, mantém o centróide partidário.

Coerência intra-partido

A validação calcula a variância das coordenadas dentro de cada partido:

Para cada partido com ≥ 2 deputados:
variância média = mean(var(coordenadas nos 4 eixos))
  • Variância baixa = partido coerente (programático)
  • Variância alta = partido disperso (catch-all)

Esse diagnóstico não altera os dados. Partidos com alta variância em estados com poucas votações podem indicar amostra insuficiente.

Resultados típicos

MétricaIntervalo típico
Votações divididas por estado15 – 80
PLs selecionados após curadoria9 – 16
Taxa de correção na auditoria10% – 25%
Parlamentares com coords individuais60% – 95%
Variância intra-partido (programáticos)0.001 – 0.02
Variância intra-partido (catch-all)0.02 – 0.08

C — Fallbacks e decisões

8. Centróide como fallback

Para estados ou parlamentares sem dados suficientes, o sistema usa centróide partidário federal como proxy:

coord_estadual(deputado) = média(coords dos federais do mesmo partido)

Esse proxy assume que deputados estaduais de um partido seguem, em média, o posicionamento dos federais. É uma simplificação conhecida, substituída por coordenadas individuais à medida que mais dados ficam disponíveis.

9. Quando usar match individual vs. centróide

A decisão segue uma árvore com três perguntas:

O estado tem dados de votação nominal?

Sim

→ Próxima pergunta

Não

→ Centróide (proxy federal)

Há pelo menos 5 votações divididas?

Sim

→ Pipeline completo (5 etapas)

Não

→ Centróide (proxy federal)

Pelo menos 2 eixos com ≥ 2 PLs?

Sim

→ Match individual

Não

→ Centróide (proxy federal)

D — Transparência e limites

10. Limitações conhecidas

  • Viés de seleção temática: a classificação em 4 eixos é uma simplificação. Matérias que cruzam múltiplos eixos recebem pesos em mais de um, mas o eixo primário é uma escolha.
  • Dependência de votações nominais: muitas assembleias votam por aclamação ou não registram votos individuais. Estados sem votação nominal pública ficam limitados ao centróide.
  • Threshold fixo: o corte de 13% é pragmático. Mais alto (20%) descartaria informação; mais baixo (5%) incluiria ruído.
  • Amostra limitada por estado: com ~15 PLs, as coordenadas capturam tendências gerais, não toda a nuance do posicionamento.
  • Proxy federal como fallback: o centróide assume homogeneidade intra-partido entre esfera federal e estadual, o que nem sempre é verdade.

11. Referências

  1. [1]Poole, K. T. & Rosenthal, H. (1985). A Spatial Model for Legislative Roll Call Analysis. American Journal of Political Science, 29(2), 357-384.
  2. [2]Poole, K. T. & Rosenthal, H. (1997). Congress: A Political-Economic History of Roll Call Voting. Oxford University Press.
  3. [3]Lipset, S. M. & Rokkan, S. (1967). Party Systems and Voter Alignments: Cross-National Perspectives. Free Press.
  4. [4]Power, T. J. & Zucco, C. Jr. (2009). Estimating Ideology of Brazilian Legislative Parties, 1990-2005. Latin American Research Review, 44(1), 218-246.
  5. [5]Zucco, C. Jr. (2009). Ideology or What? Legislative Behavior in Multiparty Presidential Settings. The Journal of Politics, 71(3), 1076-1092.
  6. [6]Zucco, C. Jr. & Lauderdale, B. (2011). Distinguishing Between Influences on Brazilian Legislative Behavior. Legislative Studies Quarterly, 36(3), 363-396.
  7. [7]Zucco, C. Jr. & Power, T. J. (2024). The Ideology of Brazilian Parties and Presidents: Coalitional Presidentialism Under Stress. Latin American Politics and Society, 66(1), 178-188.

Este processo se aplica tanto a deputados federais quanto a deputados estaduais, com adaptações por disponibilidade de dados. Alterações serão documentadas aqui.

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